A primeira permanecia em pé no metrô cheio de assentos. Nestes tempos mascarados, não vemos feições, e qualquer par de olhos expressivos nos atrai. Os dela eram assim, indo e vindo do celular para a porta do vagão, como se à espera de alguma coisa ou de alguém, ou como se com medo de errar sua estação.
Ficou assim por seis ou sete estações; enfim desceu, sem se sentar nem uma vez.
* * *
A outra sentou-se ao meu lado, lendo um livro que parecia incomodá-la ou afetá-la por demais. Remexia-se, abria as páginas com tapas.
De início, achei que era eu que a incomodava. Sou gordo, os bancos são pequenos e ficam cada vez menores, e meus movimentos às vezes incomodam. Aprendi com isso a ficar imóvel, geralmente preso na minha própria leitura, e a evitar o banco colado à janela, já que há mais espaço do lado do corredor. Mas não era eu: era mesmo o livro. Vi unhas vermelhas, mas não vi o título e não pesquei o assunto.
Quando me levantei, no Alvim, percebi que estava de saia e que tinha belas pernas. Fiquei, saberá Deus por que, espantado, com os olhos grudados nelas. Ela ia tão absorvida na leitura que não percebeu meu olhar, reconheço, muito inconveniente. Coisa rara em mulher, não perceber que a olham.
Que livro seria esse?
Que livro seria esse?
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